terça-feira, 31 de março de 2009

Estou Tonto

Estou tonto,
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar,
Ou de ambas as coisas.
O que sei é que estou tonto
E não sei bem se me devo levantar da cadeira
Ou como me levantar dela.
Fiquemos nisto: estou tonto.

Afinal
Que vida fiz eu da vida?
Nada.
Tudo interstícios,
Tudo aproximações,
Tudo função do irregular e do absurdo,
Tudo nada.
É por isso que estou tonto ...

Agora
Todas as manhãs me levanto
Tonto ...
Sim, verdadeiramente tonto...
Sem saber em mim e meu nome,
Sem saber onde estou,
Sem saber o que fui,
Sem saber nada.

Mas se isto é assim, é assim.
Deixo-me estar na cadeira,
Estou tonto.
Bem, estou tonto.
Fico sentado
E tonto,
Sim, tonto,
Tonto... Tonto.

Álvaro de Campos

segunda-feira, 30 de março de 2009

Capítulo 3

Esse é meu capítulo favorito da história do Cavaleiro Negro e como ele se tornou o Cavaleiro da Luz. Não é o primeiro, tampouco o último.

O mundo que nos envolve cada vez mais parece duro, sem arte, seco e sem sentido como cada dia depois do outro. Às vezes é necessário usar fábulas, nas quais tocamos com certo grau de magia aquilo que sentimos, dando a essa dura realidade uma aparência mais leve. Foi assim que surgiu a história do Cavaleiro Negro. Onde foi que parei? Ah sim, recordo. Sir Donnovan de Alvidar havia finalmente destruído o que julgava ser a fonte de todos os seus males. Mas o que faria ele agora que sua vingança havia se concretizado, sua alma estava lavada e, portanto, sua existência jazia sem significado? Ele já não usava mais seu elmo característico, tampouco portava suas armas. Mas seu nome continuava esquecido: a alcunha de Cavaleiro Negro havia persistido por muitos anos.

O Cavaleiro Negro vagou por toda a província em busca de um significado para sua existência, aparecendo ocasionalmente onde era requisitado. Por fim, certa vez, ele chegou a uma cidade portuária que era coincidentemente a maior cidade da província. Lá ele encontrou uma pequena feiticeira, uma Aprendiz de Dragão verde, e intrigou-se com o fato de que ela não conseguia ler o grimório em dracônico que portava. A curiosidade do Cavaleiro era tanta que ele teve de aproximar-se dela e não conseguiu negar ao pedido de que ele traduzisse o grimório para ela. Várias vezes o Cavaleiro voltou à cidade portuária e, quando ela estava lá, ele traduziu novamente o livro para ela.

Em uma destas visitas à cidade portuária, a pequena feiticeira estava com seu semblante entristecido e, ao vê-la desta forma, o Cavaleiro Negro contou uma piada qualquer, destas que os gnomos contam aos montes pelas tavernas, para que ela se animasse e, quando um pequeno sorriso surgiu nos seus lábios, ele disse “se eu te fiz sorrir, então já estás um pouco melhor”. Esta frase foi dita por ele várias vezes, como um tipo de cumplicidade que existia entre eles, talvez nem sempre ela tenha entendido. Ele pediu que ela se aproximasse dele, explicando que ele não mordia, e ela se aproximou dele.

Daquele dia em diante, várias vezes o Cavaleiro Negro, que voltou a ser chamado de Sir Donnovan de Alvidar, visitou a cidade portuária, sempre com o objetivo de encontrar a pequena feiticeira. Por vezes ele teve de esperar uma bruxa deixar o castelo para que ele pudesse visitar sua companheira de batalhas. Uma vez Sir Donnovan foi enfeitiçado por um ogro mago, e somente com a ajuda da pequena feiticeira ele pode se livrar da magia negra que havia se assolado sobre ele. Ele então contou quem era, contou sua história envolvendo a vingança, ou retribuição, acerto de contas, que era como ele a chamava, e, quando as lágrimas do guerreiro começaram a atingir o solo, a pequena feiticeira levou-o ao seu castelo. Ela cuidou dele.Depois daquele dia sir Donnovan começou a passar mais tempo com a pequena feiticeira do que se dedicando à guerra. Ela fazia com que ele se sentisse bem: em sua presença ele se tornava mais sereno e, quando fitava seus olhos, seu semblante desanuviava. Quando ele finalmente pôde entender isso, eles ficaram juntos. E foram felizes.