domingo, 31 de maio de 2009

Homenagem ao Mal do Século - Morro porque não morro

Vivo sem viver em mim
E de tal maneira espero
Que morro porque não morro

1. Em mim eu não vivo já,
E sem ela viver não posso;
Pois sem ela e sem mim quedo,
Este viver que será?
Mil mortes se me fará,
Pois minha mesma vida espero,
Morrendo porque não morro.

2. Esta vida que aqui vivo
É privação de viver;
E assim, é contínuo morrer
Até que viva contigo.
Ouve, meu Deus, o que digo,
Que esta vida não a quero
Pois morro porque não morro.

3. Ausente estando eu dela,
Que vida poderei ter
Senão morte padecer,
A maior que jamais vi?
Pena e dó tenho de mim,
Pois se assim eu persevero,
Morrerei porque não morro.

4. O peixe que da água sai
Nenhum alívio carece
Que na morte que padece,
Afinal a morte lhe vale.
Que morte haverá que se iguale
Ao meu viver lastimoso,
Pois se mais vivo, mais morro?

5. Quando penso aliviar-me
Vendo-te no Sacramento,
Faz-me em mim mais sentimento
De não podê-la gozar;
Tudo é para mais penar,
Por não vê-la como quero,
E morro porque não morro.

6. Se me deleito, Senhor,
Com a esperança de vê-la,
Vendo que posso perdê-la
Redobra-se em mim a dor;
Vivendo em tanto temor
E esperando como espero,
Morro sim, porque não morro.

7. Livra-me já desta morte,
Meu Deus, entrega-me a vida;
Não a tenhas impedida
Por este laço tão forte;
Olha que peno por vê-la,
O meu mal é tão inteiro,
Que morro porque não morro.

8. Chorarei já minha morte
Lamentarei minha vida,
Enquanto presa e retida
Por meus pecados está.
Oh! Meu Deus! Quando será
Que eu possa dizer deveras:
Vivo já porque não morro?

Licença poética de Santa Bárbara

sábado, 30 de maio de 2009

Prece Profana

Benditos aqueles que não temeram o reflexo de sua própria face, debruçados no negro espelho do abismo, pois eles viram o Inimigo, mas não o reconheceram.

Benditos os que estão perdidos, vagando sozinhos no silêncio dos desertos, no quadrilátero infeliz das cidades, tecendo desencontros reincidentes em cada esquina. Porque eles são como linhas paralelas, singulares, e atingirão seus destinos, mas não o sabem.

Benditos aqueles que não esperam piedade e tampouco a negam, porque seu amor é duro e límpido como o cristal de quartzo e eles são belos como o sorriso dos desesperados e doces como a força que ondula sob a pele dos tigres.

Abençoados sejam os que choram, e são como crianças, inteiros na dor, perplexos e inconformados. Os que trazem no corpo a marca sangrenta do Amor e um coração estarrecido e implacável, amantes ferozes como lobos. Pois eles conhecem a face real de Deus, e estão exaltados, elevados como anjos. Eles também partilharão do êxtase, e estarão na alegria, embora não creiam.

Abençoados sejam os proscritos, e todos os que são eternos forasteiros, aonde quer que vão. Aqueles aos quais ninguém conhece, nem se importa, nem fala seu idioma. Os que basta olhar para saber que vieram de muito longe, e que parecem áridos, mas são ardentes como tochas, firmes e distantes como as montanhas. Pois esses dominam o mistério da comunhão, e sabem que estamos todos presos em universos muito distintos, incomunicáveis.

Benditos os rebeldes e sonhadores de planos amorosos, os que levam sozinhos a responsabilidade de seu querer, e sabem o que destruir, e o tempo de cada ritmo, e arrasam com mão terna, e tem o olhar agradecido. Porque esses viram a Rosa e o Segredo, e florescem no Caos, e são estranhos como as perguntas das crianças.

Bem-aventurados os que não confiam nos deuses, e mesmo assim os amam. Os que não necessitam de poemas, os que estão além das palavras, os que apenas sorriem e abrem os braços...

Os grandes que não ocupam muito espaço, os mínimos mas inteiros, os que não querem falar a respeito, os que esqueceram de tudo : esses estão mais próximos da Fonte Suprema, da Realidade Última, do Mistério Primordial.

Acima de tudo, benditos sejam os que enlouqueceram de Amor e estão mais além de toda dor ou prazer, pois esses são os favoritos da Vida, e no esquecido Jardim retomarão a Dança, e adormecerão tranquilos como gatos ao sol, sobre a relva, à beira do rio, com a mão de um anjo em seus cabelos.

Prece Cristã

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.

Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
Bem-aventurados os fracos, porque herdarão a terra.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

Bem-aventurados os misericordiosos, porque receberão misericórdia.

Bem-aventurados os Puros de coração, pois estes verão Deus.

Bem-aventurados os que buscam a paz, pois serão chamados filhos de Deus.

Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.

Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós.

Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.

Mateus 5; 3-12

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Solilóquio

Um Padre foi chamado certa vez de sonhador. Sonhava tanto que o chamaram de Sonho. Com o tempo, o Sonho tornou-se um Lobo.
Um Lobo Cinzento.
Um Lobo-Mau.
Um Lobo da Estepe, sem pátria e solitário odiador do mundo moderno.
Seu passado de Sacerdote não lhe causava lástima. Pelo contrário. Lastimável era agora o presente, com todas essas horas e dias incontáveis que ele perde, que ele vive em sofrimento, que não lhe trazem nenhuma dádiva nem a menor comoção.
Mas como tudo muda, uma dia o Lobo tornou-se um Anjo.
Um anjo da guarda.
Um anjo de asas cinzentas.
Um anjo tropeçado de asas chamuscadas, mas incapaz de cair.
Por fim, o Anjo tornou-se um Lobo
Um lobo de si mesmo
Um Lobo Solitário...