Como tentar se abrir? Acho que quanto mais tento explicar, mais me perco num labirinto. Retraio-me.
Talvez situando o ambiente, o macrocosmo, consiga falar um pouco (bem pouco) deste microcosmo específico.
É sábado. Dia 7 de Setembro de 2013. Noite. Não. Na verdade deixou de ser dia 7 para se tornar dia 8 enquanto escrevia este parágrafo. Cinco minutos do dia seguinte, se é que podemos falar no presente em se tratando de dia seguinte. Acho que ficou mais ou menos claro.
Está quente demais. Ao menos para mim. A tela do notebook reflete sua luz em meu rosto e eu realmente não sei o que escrever. O silêncio é terrível: nenhum carro, nenhum trem (estou exilado, próximo a uma estação do trem), nenhuma pessoa, nenhum gato, nenhum pássaro (sim, há pássaros noturnos aqui), nenhum daqueles estranhos ruídos noturnos que as casas e os móveis fazem quando todos dormem. O silêncio que insisto em quebrar com esta batida intermitente nas teclas e o ranger baixo da cadeira.
A única constante que consigo estabelecer a meu respeito é a inconstância (caos). Me incomoda. Me atordoa. Queria que as coisas realmente fossem constantes, estáticas. Tenho alguns parâmetros de justiça e valores semelhantes pelos quais tento me guiar. Não adianta muito. Vivemos em uma época de inversão de valores. A inversão é tanta que os valores do passado, a religião do passado, o barbarismo do passado, reprimidos e não resolvidos, voltam à tona.
Sou um monstro de tempo nenhum.
Cada um faz uma ideia diversa. Cada um faz um julgamento distinto. Tornei-me (ou sempre fui) um autista com um pouco mais de liberdade. Eu não sei quem sou, e é muita pretensão de qualquer pequenino julgar quem sou.
Uma alma formada por retalhos. Um conceito de alma. Um grito tão forte de solidão que é puro silêncio. O cinza do lobo. O cinza do céu. O cinza da pele.
Eu tenho vários nomes. Isso eu já disse em outro texto. Não importa. Atualmente, tenho 27 invernos bem completos, ou quase-vinte-e-oito-malditos-anos. Ou seja, já sou versão 2.7, já sou segunda edição revisada e ampliada.
Nasci na cidade de Porto Alegre. Moro em um prédio pulguento. Não conseguiria viver em casas. Sou selvagem demais para não ter meu limite traçado entre as pessoas. Ah... uma casa vertical. E meu ódio por essas plagas grassa.
No fundo gosto de gatos. Seria preciso uma biblioteca para descrevê-los em específico. Acho suficiente dizer que eles alegram a minha vida e me protegem, cada um a seu modo.
Só consigo colocar para fora estes pedaços. Gotas pingando incessantemente por uma estreita rachadura que sustenta todo um oceano. Tanto é dado e ainda assim é tão pouco...
Sempre fui uma boa sombra cheia de contornos.
Um anjo tropeçado de asas chamuscadas, mas incapaz de cair.
Cada lembrança é um sussurro. Cada pedaço de memória também é um caco afiado de vidro.
Que importa?
Não vejo perspectivas. Todo futuro é incerto. Não negro. Incerto. Incerto como o vazio. Por vezes penso que o passado me pertence, mas nem ele é mais seguro. As coisas mudam quando mudamos a vida.
Eu toco, e não toco.
Eu sinto, e não sinto.
Eu ando, e não ando.
Eu não vivo de todo.
Algumas vezes bate forte uma vontade de desistir, de abandonar tudo. Mas não posso. Algo me proíbe.
A única verdade é verdade nenhuma.
Escolhemos o que queremos ser, do princípio ao fim.
Não sei mais o que dizer, mesmo tendo tanto-tanto-tanto para falar...
Ficamos assim: quem se importa?
Gostaria de dedicar isto a algumas pessoas. Não sei se é certo. Não sei se elas encarariam como uma tentativa de elogio ou como uma ofensa deslavada. Gostaria de dedicar a cada uma das pessoas que vive para sempre em mim. Àquelas que fizeram realmente alguma diferença, para quando eu olhar para trás. Àquelas que se foram (por motivos de vida ou por motivo de morte), as que são e as que serão. Mesmo que eu tenha já partido, fica aqui este recado. Vocês podem não se importar, mas fazem uma diferença enorme para mim...
Por favor, antes que eu me esqueça, perdoem o pedantismo. Não posso evitar.
