domingo, 1 de agosto de 2010

O Subsolo

Eu sou um homem amargo... um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás não entendo níquel da minha doença e não sei ao certo do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isso. Ora, eu compreendo. Naturalmente não vos saberei explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva[...]
Pois, em primeiro lugar, tenho culpa de ser mais inteligente que todos a minha volta. (Considerei-me, continuamente, mais inteligente que todos à minha volta, e às vezes - acreditam? - tinha até vergonha disso. Pelo menos, a vida toda olhei de certo modo para o lado e nunca pude fitar as pessoas nos olhos.)

Fíodor Dostoievsky em Memórias do Subsolo