sábado, 30 de maio de 2009

Prece Profana

Benditos aqueles que não temeram o reflexo de sua própria face, debruçados no negro espelho do abismo, pois eles viram o Inimigo, mas não o reconheceram.

Benditos os que estão perdidos, vagando sozinhos no silêncio dos desertos, no quadrilátero infeliz das cidades, tecendo desencontros reincidentes em cada esquina. Porque eles são como linhas paralelas, singulares, e atingirão seus destinos, mas não o sabem.

Benditos aqueles que não esperam piedade e tampouco a negam, porque seu amor é duro e límpido como o cristal de quartzo e eles são belos como o sorriso dos desesperados e doces como a força que ondula sob a pele dos tigres.

Abençoados sejam os que choram, e são como crianças, inteiros na dor, perplexos e inconformados. Os que trazem no corpo a marca sangrenta do Amor e um coração estarrecido e implacável, amantes ferozes como lobos. Pois eles conhecem a face real de Deus, e estão exaltados, elevados como anjos. Eles também partilharão do êxtase, e estarão na alegria, embora não creiam.

Abençoados sejam os proscritos, e todos os que são eternos forasteiros, aonde quer que vão. Aqueles aos quais ninguém conhece, nem se importa, nem fala seu idioma. Os que basta olhar para saber que vieram de muito longe, e que parecem áridos, mas são ardentes como tochas, firmes e distantes como as montanhas. Pois esses dominam o mistério da comunhão, e sabem que estamos todos presos em universos muito distintos, incomunicáveis.

Benditos os rebeldes e sonhadores de planos amorosos, os que levam sozinhos a responsabilidade de seu querer, e sabem o que destruir, e o tempo de cada ritmo, e arrasam com mão terna, e tem o olhar agradecido. Porque esses viram a Rosa e o Segredo, e florescem no Caos, e são estranhos como as perguntas das crianças.

Bem-aventurados os que não confiam nos deuses, e mesmo assim os amam. Os que não necessitam de poemas, os que estão além das palavras, os que apenas sorriem e abrem os braços...

Os grandes que não ocupam muito espaço, os mínimos mas inteiros, os que não querem falar a respeito, os que esqueceram de tudo : esses estão mais próximos da Fonte Suprema, da Realidade Última, do Mistério Primordial.

Acima de tudo, benditos sejam os que enlouqueceram de Amor e estão mais além de toda dor ou prazer, pois esses são os favoritos da Vida, e no esquecido Jardim retomarão a Dança, e adormecerão tranquilos como gatos ao sol, sobre a relva, à beira do rio, com a mão de um anjo em seus cabelos.

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