Eu achei que doeria mais me livrar dos livros ("livrar-se de livros" é uma expressão genial e não canso de repeti-la), no entanto doeu tanto quanto uma lufada de vento. Achei que isso significa que aprendi a me adaptar mas o choque visual ao ver a prateleira diferente do que sempre foi denota não ser este o fato. A verdade é que consegui me livrar dos livros porque tais livros não significam mais nada para mim. São folhas de papel e tinta. Apenas isso. "Olho os livros na minha estante que nada dizem de importante" diria um compositor baiano sobre uma situação correlata.
Ouvi - li, na verdade - que esses livros fazem parte de mim. Não, não fazem. "Você não é o que você possui." Mas são símbolos de uma época: estes livros já foram minha vida. Dediquei muito tempo a estes livros. Alguns têm mais de 10 anos e se encontram como novos, como eram na época em que eu tinha "amigos". Hoje tudo é tão estranho...
Atualmente estes livros ocupam espaço e jazem parados enquanto poderiam estar por aí concedendo a falsa noção de felicidade que me concediam em uma época que ficou para trás... embora eu ainda viva nela.
Eu não consigo me adaptar a mudanças cotidianas. Não consigo mesmo. Isso é o que torna tudo tão estranho: o mundo gira e eu fiquei parado. Não estou preparado para viver em um mundo líquido, Sr. Bauman.
Todas estas mudanças fazem com que o mundo em que vivo hoje seja completamente diferente do que era seis meses atrás. Não é como se algo mudou e preciso me adaptar a uma única mudança. Todo o universo se transformou e não há nada a que me apegar.
(Meu único amigo vai contrair matrimônio e vai morar na terra do compositor citado no primeiro parágrafo. A Bahia é tão longe que é quase noutro Hemisfério. Eu aprendi que as pessoas que vão ao Hemisfério Norte não voltam mais como eram, acho que falei com o Henrique pouquíssimas vezes desde que voltou dos EEUU. Tudo está se tornando tão estranho...)
Tamanhas mudanças fazem com que o mundo em que vivo não seja mais o mundo em que vivia. Estou exilado do meu mundo. Eu lembro que Fernando Pessoa também se sentia assim. Também, como eu, Pessoa era um exilado espiritual (espírito = essência, consciência). O poeta português resolveu seu exílio espiritual através do exílio físico.
Talvez eu deva fazer isso: me tornar o estranho. Assim, estranho/passageiro/turista em um mundo estranho, talvez finalmente me sinta em casa...
(Johnny Cash diria: "What have I become, my sweetest friend?/Everyone I know goes away in the end/(...)If I could start again a million miles away/I will keep myself/I will find a way)

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